CEO profissional: como desencadear o poder do equilibrista
Nos artigos anteriores abordamos o gigantesco desafio enfrentado por uma empresa familiar que busca se perpetuar. Além da necessidade de planejar o processo sucessório, falamos da importância de preparar os candidatos e de dar liberdade de escolha aos integrantes da família. Nesse último artigo da série trataremos de um profissional que pode colaborar de forma única para que negócios familiares tenham continuidade: o CEO profissional.
Com o objetivo de deixar mais claro o que esse profissional pode fazer é interessante recorrermos ao modelo ideal de governança corporativa. Esse modelo é no formato por duas pirâmides invertidas, veja abaixo:

A pirâmide superior contém o conselho de administração (ou consultivo) e é a esfera de influência dos acionistas. A inferior engloba o que chamamos de Gestão (os executivos que trabalham na empresa). É justamente encaixado entre as duas pirâmides que vemos esse profissional, como se fosse um equilibrista. Estamos falando do CEO (Chief Executive Officer, na sigla em inglês).
E o que esse profissional faz? Se o acionista tem a atenção fixa no longo prazo e o conselho de administração funciona com um guardião do sistema, o CEO precisa fazer um pouco disso tudo e tantas outras coisas.
Como todo líder, ele deve ser um bom comunicador, porque terá que passar à sua equipe e aos demais funcionários o que espera que façam. Além de responder pelos resultados, o CEO serve como uma espécie de embaixador da organização diante de clientes, investidores ou governantes. Nosso equilibrista ainda tem outro papel-chave: intermediar as relações de governança.
Essa é a razão pela qual ele se situa bem no meio no modelo ideal. Está ali para servir como filtro entre as pirâmides, afinal é o CEO quem media os contatos e demandas que partem das duas extremidades. Ele precisa estar de olho para que problemas dos acionistas não cheguem à equipe gestora ou aos funcionários, para prevenir descontentamentos gratuitos. Ao mesmo tempo, o CEO deve garantir que a pirâmide superior não influencie diretamente a rotina da de baixo, para deixar os gestores trabalhar com tranquilidade.
Nas empresas familiares a complexidade é ainda maior, em razão da necessidade de conviver com os membros da família (tanto os que trabalham no negócio quanto os que gravitam ao seu redor). Daí o ponto principal desse artigo: em empresas familiares a posição de CEO tende a ser desempenhada com mais competência por um profissional de mercado, sem relações de sangue com os proprietários.
Não estamos dizendo que a função não possa ser exercida por um integrante da família, os exemplos positivos são muitos. Somos contra a ideia da “profissionalização” radical, em que afastar a família do negócio é colocada como solução para tudo.
Ao contrário, entendemos que a integração é possível, via conselho de administração ou até na equipe gestora, desde que a pessoa em questão seja qualificada para isso. Por ser o principal filtro entre as pirâmides da governança, a função do equilibrista impõe dificuldades extras quando há relações de sangue presentes.
Para começar, o CEO familiar quase sempre terá problemas para estabelecer relações de equidade com outros membros da família que ocupem cargos importantes. Mesmo ao discutir temas profissionais, será difícil fugir da carga emocional que envolve qualquer convivência familiar.
No relacionamento com a equipe gestora e com os funcionários, o CEO familiar será eternamente visto como parte da família proprietária. No ambiente externo, ele também tende a sofrer mais pressão do que o executivo de mercado.
Membros de uma família empresária costumam ocupar uma posição única em sua comunidade, principalmente em cidades menores. E se uma empresa familiar tiver que demitir um grande número de funcionários ou resolver fazer a transferência de uma fábrica do local em que foi fundada para outro, por exemplo? Como o diretor geral familiar enfrentará essas situações, consciente de que será alvo de olhares de recriminação na fila do supermercado? Ainda que as razões econômicas sejam sólidas, na hora de decidir ele conseguirá separar a ligação da família com a comunidade?
Um profissional de mercado, por sua vez, não é constrangido por nenhuma relação ou histórico familiar. Ele será visto como uma pessoa qualquer, tanto por quem trabalha na empresa como por quem está fora dela. Protegido da “aura de dono” que envolve a família empresária, o CEO de mercado estará livre de todas essas pressões e apto a tomar as melhores decisões para o bem do negócio.
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Jaquelini